sábado, 17 de novembro de 2018


QUINTA DA FONTE (Centro Comunitário) - "Em vez de Balas"





"Em vez de balas" - Centro Comunitário da Apelação
(Quinta da Fonte)
17 de Novembro 2018
Projecção de fotografias feitas na Guiné - 1968 e 2018





Em vez de balas


No dia 1 de Maio de 1968, larguei do Tejo, rumo à Guiné, a bordo da fragata Corte Real. Era então um jovem tenente dos fuzileiros, com 22 anos, recém casado, que interrompera os estudos de Economia na Universidade de Lisboa.

Em Bissau integrei a 6ª Companhia, aquartelada no INAB, junto ao Geba.
A nossa missão consistia essencialmente na escolta de combóios de embarcações que levavam abastecimento aos quartéis do Exército.

Subi e desci os principais rios da Guiné comandando, conforme os casos, uma ou duas lanchas de desembarque médias (LDMs). Em ocasiões apoiado por lanchas de fiscalização pequenas (LFPs).
Naveguei no Cacheu até Farim, no Mansoa, no Geba e no Rio Grande de Buba.
Liguei por mar a foz desses grandes rios e também fui a Bolama e a Bubaque.

A guerra era uma realidade penosa para quem como eu, jovem militante comunista, se opunha ao domínio colonial e defendia a independência das colónias. Partilhei esse drama pessoal com a minha mulher, Maria Rosa, que trabalhou como professora de História no Liceu Honório Barreto.

A fotografia constituiu para mim um paliativo. Ao fotografar a dignidade do povo guineense, a beleza das suas mulheres, o porte dos seus homens e o encanto das suas crianças, eu tinha a impressão de estar a fazer um gesto de amizade no contexto da guerra. A disparar fotografias em vez de balas.
É significativo que pouco tenha fotografado da guerra e dos temas militares.

2018 é o cinquentenário da minha chegada a Bissau.
Sinto-me na obrigação de comemorar essa fase tão marcante da minha vida de jovem adulto. Tal como os outros jovens da minha geração aprendi, "no terreno", a grande lição da relatividade da nossa própria cultura.

Visitei de novo a Guiné, em Fevereiro 2018, e percorri os locais por onde passara, e fotografara, há 50 anos. E voltei a fotografar lá com a mesma câmara que então usei.

Foi realizada uma exposição das minhas fotografias, feitas em 1968/69, que teve lugar no Centro Cultural Português de Bissau.
Uma espécie de tributo, para restituição da memória de uma realidade que em grande medida já não existe.

Fechou-se então o ciclo. Como experiência pessoal é uma grande emoção.
Num plano mais geral creio que propiciará reflexões sobre a guerra colonial e  sobre a forma como a viam tantos jovens que politicamente a contestavam.

Fernando Penim Redondo (fjprgm@gmail.com - 912421586)
Quinta da Fonte, 17 de Novembro de 2018










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